segunda-feira, 2 de julho de 2007

O homem, a palavra e o mundo nas sociedades tradicionais africanas

Danielle Almeida

Atualmente, com a aprovação da lei 10639/03 que prevê o ensino de arte e cultura africana e afro-brasileira em escolas da rede pública e privada em todo o país, muitos olhares se voltaram para as publicações que abordam a temática de cultura africana no Brasil e no mundo.Uma grande quantidade de obras publicadas dentro e fora do Brasil começa a sair dos meios específicos de pesquisa e passam a ganhar novos leitores.
Há ainda uma preocupação, entre os interessados de que a lei seja efetivamente uma realidade nas escolas brasileiras, de como os conteúdos serão administrados e por quem, uma vez que a maioria dos professores não está preparada para ministrar tais conteúdos, ou mesmo, conhecem a lei. Nesse processo, terá que haver uma desconstrução de conceitos e preconceitos visando o sucesso no que confere a implantação efetiva da lei e para que uma das matrizes fundadoras do brasileiro, a matriz africana, seja desmistificada e compreendida.
No texto A tradição Viva do intelectual africano Hamadou Hampaté Bâ, há a explicitação do homem (ser humano) tradicional africano junto a seus valores, comportamentos e à sua educação. O primeiro aspecto abordado é a relação profunda do homem com a palavra e o seu papel determinante dentro das sociedades orais africanas.
“Ele é a palavra e a palavra encerra o testemunho daquilo que ele é”.
A palavra é para ele uma energia sagrada de poder criador, podendo ser usada para a preservação ou destruição, manutenção ou desequilíbrio das forças universais. Segundo as crenças dessas sociedades, Maa Ngala (Deus), depositou no homem três potencialidades: o poder, o querer e o saber, estas ficam latentes até que a vibração dessas forças, em três fases, que compreendem a formação do pensamento, a formação do som e a formação da fala, respectivamente, venha colocá-las em movimento. “No universo tudo fala: tudo é fala que ganhou corpo e forma”.
A palavra enquanto contidas em Maa Nagala, era divina. Quando Deus as compartilha com o homem, o contato com a corporeidade torna sagrado o que antes era divino. A sacralidade da palavra perpetra na fala humana o poder de animar, colocar em movimento, suscitar forças que antes estavam estáticas na natureza, nos objetos, nos animais, ou seja, no homem e fora dele. Sendo assim, para a maioria das sociedades orais a mentira, a falta com a verdade, é uma “degeneração da palavra”, segundo Hampaté Bâ, na áfrica tradicional aquele que falta à palavra mata sua pessoa civil, religiosa e oculta, ao mentir o indivíduo rompe a unidade sagrada, criando desarmonia dentro e ao redor de si, ele se separa de si e da sociedade. Nessa perspectiva a morte é uma alternativa, tanto na visão do profanador quanto de seus entes.
É evidente o valor que o homem tradicional africano dá ao equilíbrio, isso o torna responsável por si e por tudo que o cerca, há entre ele e o mundo uma relação de cooperação, de troca, de proteção, de cuidado e principalmente de respeito. Tudo que existe no universo se liga e “toda ação faz vibrar as forças da vida e despertar uma cadeia de conseqüências cujos efeitos são sentidos pelos homens”. Não há apenas uma relação de utilização, mas sim, uma relação de participação, dentro de uma visão em que a terra pertence a Deus e ao homem é concedido o direito de dela “usufruir”, nunca de possuí-la.
Todos esses valores são transmitidos ao longo da vida do indivíduo, toda a educação é baseada na palavra que só terá sentido se, além de apreendida, for vivenciada.
A primeira “escola” do homem tradicional africano é a família. É no seio da família que o indivíduo adquire conhecimento das lições da vida, transmitidas pelo pai, pela mãe e / ou pelos idosos que podem ou não ser da comunidade familiar, esses idosos têm um papel fundamental dentro dessas sociedades tradicionais, eles são os portadores de toda a memória familiar e da comunidade em que vivem, são os guardiões dos segredos, dos mitos e de tudo que concerne a memória ancestral de seu povo. Sempre há um ancião com quem se possa apreender, independente da idade do aprendiz. Quando isso não é possível dentro da comunidade em que vive, o indivíduo procura em comunidades vizinhas alguém que tenha algo novo para ensinar-lhe. Sempre é tempo de aprender em uma perspectiva onde todos são “mestre aprendiz”.
Qualquer acontecimento, qualquer incidente da vida sempre pode dar lugar para novos ensinamentos e aprendizagens, é por isso que a educação tradicional africana é dispensada durante toda a vida. A própria vida é a educação.
Uma vez que conhecemos um pouco do homem tradicional africano percebemos que é impossível trabalhar com o ensino de cultura e arte africana e afro-brasileira nas escolas sem que haja uma reflexão sobre esses valores, pois foi esse homem que chegou ao Brasil escravizado e com ele vieram formas diferentes de pensar, compreender e interagir com mundo, é a partir dele que se construiu a cultura brasileira, mesmo que muitos desses valores tenham sido sufocados ou caído no esquecimento ao longo dos tempos. O homem nas culturas tradicionais da África pré-colonial, cultivava muitos valores nunca compreendidos nas sociedades ocidentais, e é a partir desse homem e de sua produção (material e imaterial) que teremos que nos basear para a compreensão de suas influências e contribuições na construção da cultura nacional.

Um comentário:

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