quinta-feira, 21 de junho de 2007

ABDIAS DO NASCIMENTO O GRIOT E AS MURALHAS




Lisandro Dias


Hoje é o dia mundial da luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e formas correlatas de intolerância e nesse dia não posso deixar de lembrar a figura de Abdias Nascimento, homem que dedicou sua vida a lutar contra a discriminação, preconceito racial e o racismo, mais que isso, dedicou sua vida a lutar em favor da comunidade negra, buscando o reconhecimento e valor das suas especificidades na formação social, cultural e política de nosso país.A historia política e as reflexões de Abdias Nascimentos se inserem no patrimônio político-cultural pan-africanista, repleto de contribuições para a compreensão e para superação dos fatores que vêm historicamente subjugando os povos africanos e sua diáspora. Abdias Nascimento é a grande expressão brasileira dessa tradição, que inclui lideres e pensadores da estatura de Marcus Garvey, Aimé Cesaire, Franz Fannon, Cheik Anta Diop, Léopold Sedar Senghor, Patrice Lumumba, Kwame Nkruman, Almicar Cabral, Agostinho Neto, Steve Biko, Ângela Davis, Martin Luther King, Malcom X, entre muitos outros.O “negro vida” (que contrapõe o termo “negro tema”), como era chamado Abdias Nascimento pelo seu amigo e colaborador Guerreiro Ramos, fundador da sociologia brasileira, era “despistador, protéico, multiforme”, que “é hoje o que não era ontem e será amanhã o que não é hoje”, nunca se deixando imobilizar. E é nesse tipo de individuo, que o sociólogo afro-baiano personificava a própria força vital, chamada axé entre os iorubanos, ngolo entre os congos, tumi entre os acãs, baraka entre os africanos arabizados. Abdias Foi o primeiro negro a denunciar de viva voz e com credibilidade, o racismo e a farsa da democracia racial brasileira, tendo por conseqüência diversas vezes sua voz silenciada no exterior por “ferir os interesses nacionais” de apresentar o Brasil, como um lugar onde se alcançou uma harmonia racial.O professor Abdias não era um consenso, e a sua historia era de conflitos e antagonismos com a esquerda, que para ele não abrangia as verdadeiras necessidades da comunidade negra, por conta de sua luta contra o racismo, seus empreendimentos em prol da comunidade negra e sua produção intelectual, o professor Abdias Nascimento sempre foi tratado pelos comunistas como um divisionista, ou mesmo um reacionário. A está limitação dos comunistas em compreender a mazela nacional que significa o racismo e a discriminação da sociedade e do estado brasileiro contra o negro, Abdias reagia e reage no limite do confronto, por isso foram poucas as parcerias com os comunistas e não lograram êxito.Abdias Nascimento e o poeta negro Ele Semog, acabam de lançar no mercado editorial o livro “Abdias Nascimento o griot e as muralhas”, onde conta sua vida desde a infância humilde na cidade de Franca no interior de São Paulo, passando pela criação do TEM (teatro experimental do negro) no Rio de Janeiro, mostrando suas experiências no exílio e seu contato com lideranças do movimento negro internacional, onde na visão do próprio Abdias não se mostravam mais evoluídos que a nossa luta no Brasil, o livro mostra também, a sua relação com Leonel Brizola e seu engajamento na vida política, culminando com um interessante relato sobre sua vida como senador da republica. Mais do que historias da vida desse grande intelectual e militante do movimento negro, o livro mostra a luta incondicional de um homem por aquilo que ele acreditava ser certo, onde nem o poder econômico e político puderam desvirtuá-lo de seus objetivos os que entre eles eram de mostrar o negro como sujeito, como ser no mundo, mundo esse que sempre o considerou como aquele que não é. Como disse o poeta Arnaldo Xavier:“esse Abdias é um negro dos nossos, tão tinhoso, rebelde e ingrato que onde chegava, mostrava a merda hecatômbica que o branco fizera e de que tentava colocar a culpa na gente negra. Deve-se beber tudo dessa fonte e se aprender tudo, por que o velho é um orixá vivo!”.

Nenhum comentário: