quinta-feira, 21 de junho de 2007

PRONUNCIAMENTO PARA SESSÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 1OO ANOS DO JORNAL A ALVORADA



Lisandro Dias



Se a cultura de um povo é o cimento da sua identidade, para nós africanos e seus descendentes dos dois lados do Atlântico, ela representa há muito tempo o ferro e a brasa com que forjamos nossa sobrevivência e coesão como um povo. Manifestando-se não apenas na música e na dança popular, e também na culinária, como quer fazer crer o reducionismo eurocêntrico, mas abrangendo as artes plásticas, a literatura, sem esquecer a tecnologia na agricultura e nas mineração.
A força da cultura africana pode ser atestada por sua própria sobrevivência nas condições adversas em que ela, a despeito de tudo, conseguiu florescer. Assim, a todos lugares a que chegaram por vontade própria ou involuntariamente, os africanos deixaram a marca indelével da sua cultura. De tal modo que, na maior parte das Américas, no Brasil como nos Estados Unidos, Colômbia, na Venezuela, no Equador e no Peru, para não falar das nações da América Central e Caribe, as manifestações culturais mais características e originais as que são exibidas como típicas da nacionalidade, são exatamente aquelas que brotam da fonte africana.
No Brasil, o cruel massacre da escravidão não impediu o florescimento de uma cultura negra tão poderosa que se impõe como verdadeira cultura do povo brasileiro. Exemplo disto está na ação do jornal “A Alvorada” Considerado um dos mais antigos do estado do Rio Grande do Sul.
Fundado em 05 de maio 1907 por intelectuais negros como Antonio Baobab, cuja trajetória foi de escravo a líder trabalhista, também tendo como fundadores Rodolfo Xavier, Juvenal e Durval Penny e tantos outros que não menos importantes ajudaram a erguer na cidade de Pelotas o semanário. O A Alvorada, foi denominado em outro contexto de “imprensa negra” ou “imprensa alternativa negra”. Segundo Roger Bastide(um dos maiores estudiosos das relações raciais no Brasil, “era uma imprensa que só tratava de questões raciais e sociais, que só se interessava pela divulgação dos fatos relativos à classe da gente de cor”. O público ao qual o jornal era dirigido incluía “os de raça” e os operários, indiscriminadamente, o que alarga muito mais o campo de atuação dos negros envolvidos com a manutenção do periódico do que o definido por Bastide. como nos narra o historiador José Antonio dos Santos, autor do livro “Raiou a Alvorada: Intelectuais Negros e Imprensa, Pelotas (1907-1957)
Sendo, assim, o A Alvorada reflete as intenções de um grupo que até então vivera totalmente a margem da sociedade e que agora percebe a necessidade de arregimentar sua massa, para obter maior eficiência na efetivação dessas reivindicações.
A história da luta pela liberdade e justiça em nosso país registra um sem–número de páginas gloriosas, exemplos de tenacidade, sacrifício e abnegação protagonizados por mulheres e homens negros de todas as épocas. Diferentemente da imagem passiva e conformista que mitos como o do “negro submisso” tentam inculcar nos descendentes de africanos no Brasil. Estes ao contrário, sempre souberam manifestar os seus anseios e reivindicações por todos os meios necessários, defendendo até mesmo com o próprio sangue seus direitos ultrajados. O “A Alvorada”, exemplo na luta por direitos de igualdade social e cultural dos operários negros na cidade de Pelotas, marca o espírito guerreiro de não conformação com as mazelas da discriminação e preconceito contra os chamados “de cor”.
Ao celebrarmos os 100 anos de nascimento do jornal o A Alvorada, celebramos também a continuidade de uma luta que espero seja compromisso de todos nós, a fim de erradicarmos o preconceito, as injustiças e o racismo no Brasil.
Quero, portanto, dar as minhas calorosas felicitações representando o grupo SANGOMA, Ao clube Cultural Fica Ahí Pra Ir Dizendo e o atencioso vereador Ademar Ornel proponente desta sessão, responsáveis pela oportuna iniciativa. Tenho a certeza de que graças à divulgação que este evento propicia e o trabalho que foi desenvolvido pelo jornal o A Alvorada, vai inspirar pessoas em toda a cidade de Pelotas, empenhadas em brandir a cultura como instrumento de transformação das relações raciais neste país.





Muito Axé a todos

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